|
Não há Cinderela que resista (in Crónicas da Terra) É difícil um baile / concerto proporcionar tanto gozo à assistência de “pé de chumbo”. Quem está completamente fora do mundo das danças tradicionais, não está habituado a ver uma horda de gente a participar na dança, em roda, aos pares, a bater palmas no tempo exacto, sabendo exactamente o que fazer assim que escuta um passo doble, uma mazurca, um chote, ou um bourré. É bonito de se ver. Há-que dar os parabéns à organização Pedexumbo pela forma como ao longo desta última meia-dúzia de anos tem efectuado sucessivos workshops de dança em todo o país, organiza o Andanças e, acima de tudo, consegue de ano para ano alargar a legião de dançarinos que são, por si só, público mais do que suficiente em qualquer actuação de um projecto à imagem de uns Uxu Kalhus, ou de uns At-Tambur. Curiosamente, partindo de um repertório comum, os Uxu Kalhus encontram-se nos antípodas dos At-tambur. Enquanto estes últimos investem numa vertente de música popular a piscar o olho ao formato clássico de câmara, vestindo o fato e a gravata, os Uxu Kalhus incorporam toda uma série de estilos provenientes da Índia, de África e da Jamaica, num tom fulminantemente informal, de indumentária “freak”, suja com as diferentes camadas de terra em se rebolam. Uma chotiça contaminada por dub, uma valsa em ritmo afro mandinga com mantras indianos pelo meio, um saraquité afunkalhado, o “I will survive” de Gloria Gaynor cantado entre um passo doble, o “Misirlou” de Dick Dale, o “D’artacão” em versão thrash, entre mais uma dança europeia. Os coelhos que os Uxu Kalhus tiram da cartola foram infindáveis numa noite, como sempre, em que o gozo de tocar, de transgredir é mais forte. Nem eles, nem nós, damos pelo avançar dos ponteiros do relógio. De repente reparamos que já passaram mais de três horas. Quase quatro. E acaba por saber a pouco. Nada de cansaço, somente sorrisos rasgados e a vontade de continuar. O capital de simpatia do colectivo é extremamente elevado: pela doce Celina que nos encanta, ora quando interpreta “Saraquité”, “Erva Cidreira” ou “Regadinho”, ora quando acelera com o seu acordeão numa valsa e quando faz do seu instrumento uma melódica em cima de um ritmo dub; pelo Paulo Pereira e o seu virtuosismo em ralchpfeifen, aerofone medieval de palheta dupla e de sonoridade aguda a fazer lembrar uma bombarda bretã; pela mortífera secção rítmica afro indígena de Nuno Patrício, Hugo Menezes e Miguel Casais; pelo groove e funk do baixo de Eddy Cabral; pela guitarra eléctrica, estridente e propositadamente foleirona, de recorte hard’n’heavy, de Vasco Casais, que funciona bem no ambiente inflamado de declarada desbunda, questionável, contudo, quando transposto para disco. É notável como o duo CPPP (Celina / Paulo), a essência espiritual deste projecto que já vem de longe – dos próprios CPPP e de Bailia – funciona tão bem com aquele bando de prevaricadores que conspurcam com ska, thrash e ritmos afro as lineares danças europeias e lusitanas, incitando-os porém, a fazer ainda pior. Fica a sensação de que eles, assim como os Irmãos Catita, não querem ser levados muito a sério. Apenas divertirem-se em comunhão com a turba ágil e certeira nos passos de dança. Resta saber como será o álbum que se avizinha. Como conseguirão eles transpor toda esta folia? Este gozo para uma rodela de plástico, onde esta mágica interacção com os dançarinos não é captada? Luís Rei Read 0 Comments... >> |